15/02/2009

"Madrugada dos Trapeiros" - 1977







Fausto





Fausto Bordalo Dias grava, em 1977, "Madrugada dos Trapeiros" (Orfeu), um dos discos fundadores da música popular portuguesa e que, embora com algumas particularidades decorrentes do momento histórico, aborda temáticas que hoje, decorridos trinta anos, são preocupantemente actuais: desigualdades sociais, desemprego, condições de trabalho lesivas da dignidade humana, redução da mulher a mercadoria sexual, questões ambientais, etc. «Tendo como ponto básico de partida a música tradicional e a criação de raiz urbana, no seio da qual ganha alento novo a tendência para a fusão de elementos vários provenientes de influências diversas» (cit. Mário Correia), o trabalho surge também como reacção à invasão avassaladora e uniformizadora da música anglo-americana (mais propriamente do pop-rock): «Sempre me opus e resisti à tirania do rock e do pop em Portugal pelo que isso representa de normalização da música» (cit. Fausto). Infelizmente, o problema ainda está por resolver e muitos têm sido os danos causados à nossa música de maior valia e autenticidade, perante a indiferença olímpica dos poderes político-culturais.
A execução instrumental é assegurada por Fausto (guitarra acústica), Guilherme Scarpa (bateria), Hélder Reis (acordeão), Mestre Paulinho das Garotas (violinha), Rui Monteiro (adufes, bombos, caixa de guerra e ferrinhos) e Rão Kyao (saxofone e flauta), contando-se também a participação vocal de Aristides, Fernando Laranjeira, Sabine e Sérgio Godinho, para canções com letra e música de Fausto ("Atrás dos Tempos Outros Tempos Vêm", "Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)", "Uns Vão Bem e Outros Mal", "O Varredor", "Cantiga do Desemprego", "Mariana das Sete Saias" e "Um Canto para Letrado"), com letra de Leonel Santos e música de Fausto ("As Comissões") e com música de Fausto e António Pedro Braga sobre poema de Reinaldo Ferreira ("Rosie").
Parafraseando Viriato Teles, «"Madrugada dos Trapeiros" é, ainda, um disco com uma profunda carga política, mas onde é já possível vislumbrar as novas preocupações estéticas do seu autor, nomeadamente através da utilização sistemática de elementos tradicionais – o embrião, afinal, daquilo que virá a ser conhecido como Música Popular Portuguesa. O disco inclui aquele que permanece como um dos maiores êxitos do músico: "Rosalinda", um belíssimo manifesto ecológico [contra a central nuclear que pretendiam construir em Ferrel, Peniche], que foi, inclusivamente regravado em Espanha por Luis Pastor». Destaque ainda para a belíssima e alga esquecida "Mariana das Sete Saias", canção que versa o problema social da prostituição, assunto que Carlos Mendes também cantou na altura ("Amélia dos Olhos Doces") e que Vitorino retomará, quinze anos mais tarde, no álbum "Eu Que Me Comovo Por Tudo e por Nada" (EMI-VC, 1992).

Fonte –  a nossa rádio   




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